Por Vinícius Alves | Rádio Galera
Por trás da rotina de um atleta profissional, dos treinamentos, dos jogos e dos objetivos dentro do futebol, existe uma vida que também pode ser marcada por desafios que nem sempre aparecem dentro de campo. Para o atacante Michel Henrique, de 37 anos, um desses desafios foi a luta contra a ludopatia, transtorno relacionado à perda de controle sobre o comportamento de apostar.

Natural de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, Michel construiu uma trajetória de quase duas décadas no futebol profissional. Formado nas categorias de base do Coritiba, passou por diversos clubes brasileiros e também teve experiência no futebol uruguaio. No futebol gaúcho, conquistou destaque ao terminar como artilheiro do Campeonato Gaúcho em 2015, pelo Passo Fundo, e em 2018, pelo São Luiz. Em 2026, voltou a defender o Bagé.
Michel Henrique relata o sofrimento provocado pela dependência em apostas, os impactos na vida familiar e os desafios para recomeçar. Atacante pretende transformar a própria experiência em um alerta para outras pessoas.
Fora dos gramados, porém, o jogador enfrentou uma realidade muito diferente daquela vivida nos campos. Em um período marcado pelo sofrimento emocional e por perdas pessoais, Michel chegou a um limite que o levou a reconhecer a necessidade de mudar.Atualmente, segundo seu relato, está há mais de 60 dias sem apostar. O período representa uma etapa de um processo de reconstrução que envolve enfrentar as consequências do vício, recuperar vínculos e buscar novos caminhos para a própria vida.
“Eu cheguei em um limite mental que eu não aguentava mais viver minha vida acorrentado no vício. Pensei por três vezes em tirar minha vida e Deus trouxe meu filho na minha visão e me deu uma nova oportunidade”, relata.
O depoimento revela a dimensão do sofrimento enfrentado pelo jogador. Para ele, o início da mudança exigiu mais do que interromper as apostas: foi necessário reconhecer o problema e admitir, diante de si mesmo e das pessoas próximas, que precisava de ajuda.
“A primeira medida foi olhar para dentro de mim e ver que aquilo não era eu. Eu precisava tomar a decisão de parar e falar a verdade para as pessoas. E isso me custou muita coisa importante na minha vida.”
O primeiro passo é reconhecer o problema
Reconhecer que as apostas passaram a ocupar um espaço prejudicial na vida é uma etapa importante, mas nem sempre fácil. A vergonha, a culpa e o medo das consequências podem dificultar o pedido de ajuda.Segundo a psicóloga Amanda Turella (CRP 07/42767), reconhecer a existência do problema é um dos primeiros passos para iniciar a recuperação. A partir daí, a orientação é buscar acompanhamento profissional e, quando necessário, participar de grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos.A especialista ressalta que existe uma diferença entre apostar ocasionalmente e desenvolver o Transtorno do Jogo. O sinal de alerta aparece quando o comportamento provoca sofrimento significativo e começa a comprometer a vida pessoal, familiar, profissional ou financeira.Entre os sinais que merecem atenção estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, a preocupação constante com jogos, a irritabilidade ao tentar parar, a tentativa de recuperar perdas por meio de novas apostas e as mentiras utilizadas para esconder o comportamento.Também podem ocorrer prejuízos financeiros, conflitos familiares e o uso das apostas como uma forma de lidar com ansiedade, frustrações ou sofrimento emocional.
Não basta apenas decidir parar
Para Michel, a interrupção das apostas exigiu mudanças profundas na rotina e nos hábitos. Além de deixar de apostar, foi necessário começar a enfrentar as pendências acumuladas durante o período de dependência.
“Mudei radicalmente meus hábitos. Graças a Deus, estou há mais de 60 dias limpo, sem nenhuma recaída, e acertando as pendências que ficaram”, afirma.
Na prática, a recuperação pode ser mais complexa do que uma decisão individual de não apostar novamente. Amanda explica que o comportamento compulsivo pode envolver mecanismos psicológicos que dificultam o controle dos impulsos.Por isso, o tratamento busca compreender qual função o jogo passou a exercer na vida da pessoa e desenvolver outras formas de enfrentar emoções, frustrações e dificuldades.Outro aspecto importante é desconstruir a ideia de que uma nova aposta poderá recuperar o dinheiro perdido. A tentativa de compensar prejuízos dessa maneira pode alimentar o ciclo de apostas e ampliar as consequências financeiras e emocionais.As consequências continuam depois da última apostaInterromper as apostas não significa que todos os problemas desaparecem imediatamente. As perdas financeiras, os conflitos e os danos aos relacionamentos podem permanecer mesmo depois que o comportamento é interrompido.Michel reconhece que enfrentar essas consequências é uma das partes mais difíceis de sua trajetória atual.
“Hoje as consequências não são fáceis. A dor da perda e o sofrimento são reais, mas tenho encarado com muita fé em Deus. A maior dificuldade é a perda familiar.”
O relato evidencia que os impactos da ludopatia podem ultrapassar a questão financeira. A confiança, a convivência e os vínculos afetivos também podem ser atingidos, exigindo tempo e esforço para serem reconstruídos.Amanda Turella explica que tentar recuperar o dinheiro perdido por meio de novas apostas representa um risco importante para quem enfrenta o transtorno. A reconstrução envolve reconhecer os prejuízos, assumir responsabilidades e encontrar maneiras de lidar com eles sem retornar ao comportamento compulsivo.Para Michel, a decisão de não voltar às apostas está tomada.
“As apostas já estão no passado. Não voltarão mais à minha vida. Isso é um passado trágico que também serviu para impulsionar pessoas a não caírem nessa armadilha. Isso não presta. As consequências a gente vai, dia após dia, acertando, e Deus vai colocando todas as coisas no lugar.”
Uma rede de apoio para reconstruir
O processo de recuperação também envolve as pessoas que estão ao redor de quem enfrenta o problema. Familiares e amigos podem contribuir para o acolhimento e para a construção de uma rotina mais saudável.Michel afirma que conta com pessoas próximas que têm sido fundamentais neste momento.
“Eu tenho uma rede de apoio muito boa aqui comigo, pessoas maravilhosas, familiares que estão me ajudando e me impulsionando para o caminho certo. Então, só tenho a agradecer a eles por tudo.”
A psicóloga destaca que compreender a ludopatia como um transtorno, em vez de tratar a situação apenas como falta de força de vontade, pode facilitar o diálogo e a procura por ajuda.Isso não significa ignorar os prejuízos causados pelo comportamento. O acolhimento pode caminhar junto com a responsabilização e com a construção de limites que ajudem a evitar novas situações de risco.A especialista também ressalta que familiares podem precisar de apoio emocional, já que acompanhar alguém durante um processo de dependência pode ser desgastante.
Como enfrentar a vontade de apostar?
Mesmo após interromper o comportamento, a pessoa pode voltar a sentir vontade de apostar. Aprender a reconhecer esses momentos e desenvolver estratégias para enfrentá-los faz parte do processo.Michel conta que a fé e o diálogo consigo mesmo são recursos que utiliza quando percebe o impulso de voltar às apostas.
“Quando sinto algum tipo de vontade, na mesma hora eu travo uma guerra comigo mesmo. Busco a Deus em oração e falo para mim: ‘Você não pode voltar ao lugar de desgraça onde estava, até porque você se levantou para ajudar pessoas’. E assim venço as vontades.”
Na avaliação de Amanda Turella, aprender a tolerar a frustração e criar um intervalo entre o impulso e a ação são estratégias que podem ajudar.Em vez de agir imediatamente diante da vontade, a pessoa pode procurar adiar a decisão, afastar-se de situações que funcionem como gatilhos e buscar apoio. A psicoterapia e os grupos especializados também podem contribuir para o desenvolvimento dessas estratégias.A recuperação não depende de uma única ferramenta. O acompanhamento deve considerar a realidade de cada pessoa e os fatores que contribuem para a manutenção do comportamento.
O futebol continua sendo uma paixão.
Apesar das dificuldades enfrentadas fora dos gramados, Michel faz questão de separar a profissão do período em que desenvolveu o problema com as apostas.
“Eu sempre fui apaixonado pelo que fiz, amo minha profissão e nunca tive envolvimento com algo sobre as apostas na minha profissão. Esse passado nunca teve a ver com minha profissão, e sim com um vício em que eu caí.”
A relação entre futebol e apostas, entretanto, merece atenção. A exposição a resultados, estatísticas, competições e publicidade de plataformas de apostas pode aproximar o público desse tipo de comportamento.A psicóloga explica que fatores sociais, ambientais e emocionais podem influenciar a relação de uma pessoa com o jogo. Por isso, permanecer em ambientes ou próximo de pessoas que incentivam as apostas pode representar uma dificuldade adicional durante a recuperação.No caso de Michel, a intenção é continuar trabalhando no esporte, preservando a paixão que o acompanha ao longo da carreira e construindo uma nova etapa de sua vida.
Recuperação não significa apenas parar de apostar
A recuperação da ludopatia vai além da interrupção das apostas. É necessário reconstruir a relação com o dinheiro, com as próprias emoções, com a família e com os projetos de vida.Segundo Amanda Turella, o acompanhamento psicológico pode ajudar a pessoa a compreender sua trajetória, elaborar frustrações e desenvolver recursos para enfrentar dificuldades sem recorrer ao comportamento compulsivo.Também é importante compreender que sentir vontade de apostar não significa, por si só, que todo o processo de recuperação foi perdido. O desafio está em reconhecer o impulso, compreender os riscos e utilizar estratégias para não voltar ao comportamento prejudicial.O acompanhamento profissional permite avaliar as necessidades de cada pessoa e construir formas de cuidado adequadas à sua realidade.
Um novo projeto de vida
Agora, Michel olha para o futuro com o objetivo de reconstruir aquilo que foi perdido e transformar a própria experiência em uma oportunidade de ajudar outras pessoas.
“Eu vou reconstruir minha vida primeiro e usar o meu testemunho para ajudar pessoas. Hoje alguns projetos estão em andamento, mas sigo atuando como atleta profissional. Ainda tenho algumas ambições dentro do esporte, mas Deus está cuidando de tudo.”
O jogador afirma que pretende desenvolver projetos voltados a pessoas que enfrentam situações semelhantes, embora, neste momento, sua prioridade seja reorganizar a própria vida e seguir atuando profissionalmente.A intenção de transformar a experiência em um alerta também aparece quando ele fala sobre a principal lição que leva dessa trajetória.
“A principal lição de tudo isso é não se envolver com coisas ou situações que causam vícios. E aí eu falo não só da ludopatia, mas também de todas as outras coisas que estão tragando pessoas.”
Ao olhar para o passado, Michel procura dar um novo significado à experiência que viveu. A intenção é que o relato não seja lembrado apenas pelas perdas, mas também pela possibilidade de alertar outras pessoas sobre os riscos de perder o controle sobre as apostas.
“Viva uma vida com Deus, com muita disciplina”
Se pudesse voltar ao início dessa história e conversar com a pessoa que era quando começou a apostar, Michel deixaria uma mensagem baseada naquilo que considera essencial para seu recomeço
.“Viva uma vida com Deus, com muita disciplina em todas as áreas, busque viver com a sua família, dê todo o amor e vá atrás dos seus sonhos.”

A história de Michel Henrique ainda está sendo escrita. Mais de 60 dias sem apostar representam uma etapa de um processo que envolve enfrentar as consequências, reconstruir vínculos e aprender a lidar com as dificuldades sem retornar ao comportamento compulsivo.O jogador continua com objetivos dentro do futebol e pretende transformar a própria experiência em um instrumento de conscientização.O recomeço não apaga o que aconteceu, nem elimina de imediato as consequências. Mas, para Michel, abre a possibilidade de construir uma nova trajetória — dentro e fora dos gramados
Onde buscar ajuda
Pessoas que enfrentam dificuldades para controlar as apostas, assim como seus familiares, podem procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
.• Unidades Básicas de Saúde (UBS): podem ser a porta de entrada para acolhimento, orientação e avaliação inicial.
• Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento especializado em saúde mental, conforme a necessidade de cada pessoa.
• Teleatendimento pelo SUS: pode ser acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital. Após entrar com a conta gov.br, o usuário deve procurar a opção relacionada a problemas com jogos e apostas e seguir as orientações da plataforma
.• Jogadores Anônimos Brasil: grupo de apoio para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo.
Acesse:Ministério da Saúde — Saúde mental e apostasJogadores Anônimos Brasil: https://jogadoresanonimos.com.brBuscar ajuda é um passo importante. A pessoa não precisa enfrentar o problema sozinha, e os familiares também podem procurar acolhimento e orientação.
ReferênciasAMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.OLIVEIRA, Maria Paula Magalhães Tavares de et al. Transtorno de Jogo: contribuição da abordagem psicodinâmica no tratamento. Psicologia USP, v. 33, 2022.OLIVEIRA, Maria Paula Magalhães Tavares de. A legalização das apostas e Transtorno de Jogo. Junguiana, v. 42, 2024.JOGADORES ANÔNIMOS BRASIL. Informações sobre grupos de apoio e reuniões.MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde Mental | Não Aposte Sua Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-mental/nao-aposte-sua-saude.